EUA correm risco de uma "megasseca" que duraria 30 anos, aponta estudo
Um estudo divulgado pela Nasa (agência espacial americana) aponta
que as emissões de gases poderiam aumentar radicalmente o risco de
grandes secas nos Estados Unidos, a ponto de as regiões sudeste e
planícies centrais experimentarem um período de 30 anos de estiagem.
A pesquisa indica que as secas registradas no sudeste e na região das
planícies centrais dos Estados Unidos nos últimos 50 anos podem ser mais
longas do que as experimentadas nos últimos mil anos. Segundo o
pesquisador-chefe Ben Cook, cientista climática do Instituto Goddard
para Estudos Espaciais e do Observatório da Terra Lamont-Doherty na
Universidade de Columbia, a situação deve piorar bastante se não houver
controle das emissões de gases.
De acordo com a pesquisa, há uma
probabilidade de 12% de que essas regiões experimentem uma "megasseca",
que duraria três décadas. Entretanto, se as emissões de gases de efeito
estufa continuarem a crescer durante todo o século 21, essa
probabilidade subiria para 80% entre 2050 e 2099.
"Secas
naturais como a dos anos 1930 e a que vivemos hoje no sudeste do país
historicamente duraram um pouco menos de uma década", afirmou o
pesquisador. "O que os números nos mostram agora é que vamos
experimentar uma seca semelhante a essas, mas que provavelmente vai
durar de 30 a 35 anos".
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| Combinação de fotos da Nasa mostra efeito da seca na Califórnia | | |

28.jan.2014 - Poça de água se destaca em meio ao solo seco e rachado no fundo da represa Alamden em San Jose, na California, EUA
O sudoeste e as planícies centrais dos Estados Unidos correm o risco de
enfrentar uma mega seca a partir de 2050 – a maior em mil anos, segundo
pesquisadores. Algumas regiões, como a Califórnia, já enfrentam uma
séria escassez de chuvas, mas a situação é branda se comparada com
alguns períodos dos séculos 12 e 13. "Essas mega secas durante os anos
1100 e 1200 persistiram por 20, 30, 40, 50 anos de cada vez e foram
secas que ninguém na história dos Estados Unidos jamais experimentou",
disse Ben Cook, do Instituto Goddard para Estudos Espaciais da Nasa.
São esses eventos climáticos sem precedentes no último milênio que
podem vir a acontecer, segundo os novos modelos. "As secas que as
pessoas conhecem – como a que foi chamada de dust bowl nos anos 1930 por
causa das tempestades de areia, a seca dos anos 1950 ou mesmo a atual
seca na Califórnia e no sudoeste – foram secas naturais que esperava-se
que durassem apenas alguns anos ou talvez uma década", disse
Cook. "Imagine se a seca atual na Califórnia continuasse por mais 20
anos", comparou.
Duplo efeito O
estudo reforçou um consenso sobre as secas que deverão afligir o
sudoeste e as planícies centrais americanas (uma larga faixa de
território do norte do Texas até as Dakotas do Norte e do Sul) em
consequência das crescentes emissões de gases na atmosfera.
Elas serão causadas por um fenômeno duplo: a precipitação reduzida
(redução da quantidade de chuvas e neve) e o aumento da evaporação
(impulsionado pelas altas temperaturas, que deixará os solos mais
ressecados).
Para o novo estudo, a equipe de Cook comparou
reconstruções das condições climáticas do passado feitas a partir da
análise dos anéis de crescimento das árvores – os anéis são mais largos
em anos mais úmidos. Foram levados em conta também outros 17 modelos
climáticos, além de índices diferentes usados para descrever a
quantidade de umidade que se manteve nos solos.
Com estas
informações, os pesquisadores conseguiram entender a variação natural do
sistema climático, separando o que são situações normais e o que seriam
situações extremas.
O que o grupo descobriu foi que, após
2050, o sudoeste e as planícies centrais provavelmente passarão por
períodos de estiagem que ultrapassariam até mesmo a chamada "anomalia
climática medieval" nos séculos 12 e 13.
"Tanto no sudoeste
quanto nas planícies centrais, estamos falando de um risco de 80% de uma
seca de 35 anos até o final do século, se a mudança climática se
consumar", disse o coautor do estudo Toby Ault, da Universidade de
Cornell.
"E esse é um ponto muito importante – não estamos
necessariamente presos neste alto risco de uma mega seca se tomarmos
providências para retardar os efeitos da emissão dos gases estufa nas
temperaturas globais."
Vivendo em estiagem
Ault definiu as condições de uma mega seca usando o exemplo da cidade
de Tucson, no Arizona, onde a precipitação está em 80% dos níveis
esperados desde o final dos anos 1990. Se isso continuar por mais duas
décadas, a situação se qualifica como mega seca.
Apesar do desafio, o pesquisador se disse otimista com a possibilidade de desenvolver estratégias para lidar com o problema.
"Os registros que temos de mega secas do passado são baseados em
estimativas de anéis de crescimento. Se você pensar bem, isso é um pouco
animador, porque significa que as secas não foram ruins a ponto de
matar todas as árvores", disse Ault.
"Estou otimista porque uma
mega seca não significa não ter água – significa apenas ter muito menos
água do que nos acostumamos a ter no século 20."
O estudo,
divulgado na publicação científica Science Advances, foi discutido no
encontro anual da Associação Americana para o Avanço das Ciências, que
acontece em San Jose, na Califórnia.