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Pelo menos 242 deslocados da guerra na Síria pediram refúgio no país, que deve receber mais
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Seus filhos têm a idade da guerra, que parecia distante até bater à
porta, em março de 2012. Nos 18 meses desde então, S.B., de 40 anos,
fugiu quatro vezes, fazendo malas às pressas e mudando-se sempre em
direção a Damasco - a última vez, para um hotel perto do palácio
presidencial, área cercada pelas forças de Bashar Assad e supostamente
mais segura. Mas o conflito parecia segui-lo. Na semana passada,
desembarcou no Brasil. "Não existe mais lugar seguro na Síria, só o
cemitério!"
S.B. escapou de dois atentados a bomba e viu sua rua convertida em
campo de batalha. O basta veio com o ataque químico de 21 de agosto, que
matou 1.429 pessoas, entre elas 426 crianças, em Ghouta, a 2 km da casa
onde cresceu e para a qual tinha decidido voltar sozinho.
Naquele março de 2012, um bombardeio atingiu a frente do prédio; com o
impacto, a mãe caiu e quebrou as costelas. Foi a primeira vez que
presenciava o conflito tão perto. Ele levou a família a um local mantido
em segredo e, desde então, não vê os pais, a mulher e os filhos, agora
com dois anos e meio.
"Fiquei sozinho. No início, ia vê-los de avião, mas avenida até o
aeroporto ficou perigosa demais, com confrontos e bombardeios diários.
Era a avenida mais bonita de Damasco, hoje é uma terra de ninguém", diz.
"Comecei a visitá-los carro, mas os conflitos bloqueavam as estradas e
há gangues que roubam e sequestram os motoristas. Sobreviver em Damasco,
hoje, é questão de sorte."
S.B. passou a atravessar para o Líbano, onde podia pegar estradas
mais seguras, para então entrar novamente na Síria - o percurso de 4
horas levava 20. "Mas a situação se complicou com tantos refugiados e o
Líbano restringiu a entrada."
Ele pediu visto a países do Golfo. "Mas estes países fecharam as
portas aos sírios e não obtive o visto. É estranho que só encontraria
uma chance de viver com segurança e paz a 30 mil quilômetros de casa",
diz.
A fuga de 2 milhões no total provocou tensões políticas na Jordânia,
Líbano e Turquia. A ONU negocia o reassentamento em países como o
Brasil.
Pelo menos 242 sírios já pediram refúgio ao Brasil desde o início da
guerra civil, segundo a ONU. Mas estima-se que muitos mais estejam no
país como turistas, abrigados em casas de famílias. E, como S.B., temem
pedir refúgio. "Poderia significar uma espécie de traição ao governo de
Assad", diz.
POR QUE? "Eu fumava um cigarro com um amigo e
ele comentou sobre as crianças de Daraa (cidade síria onde pelo menos 15
foram presas por pichações antigoverno nos muros de uma escola, em
2011, dando início aos protestos). Perguntei: o que tem Daraa? Eu tinha
me esquecido! Nós nos esquecemos de como tudo isso começou! Ambos os
lados do conflito se esqueceram de por que estão lutando. Só estão
preocupados em eliminar o outro e deixaram de lado o povo", diz. "Não é
mais sobre democracia e liberdade!"
Para ele, a Primavera Árabe falhou. "Líbia e Tunísia continuam
voláteis e o Egito... Odeio a Irmandade Muçulmana, tudo o que são e
dizem, eu os acho uns tolos! Mas (Mohamed) Morsi foi eleito. E o que
aconteceu? De seu lado, tentou impor um governo islâmico ignorando parte
da população que não queria isso. Então, o que fez a oposição? Voltou
para as ruas, ignorando outra parcela da população e o derrubou de forma
tão antidemocrática. Isso não é primavera, é o inferno árabe!"