Claudio Barcelos cobrava dinheiro para liberar presos em São Luís.
Diretor de presídio de Pedrinhas era monitorado há três meses, diz polícia.
Uma série de mensagens interceptadas pela Polícia Civil comprovam a
ligação entre criminosos e o diretor da Casa de Detenção do Complexo de
Pedrinhas, Claudio Henrique Bezerra Barcelos. Nesta segunda-feira (15),
ele foi
preso preventivamente por suspeitas de receber dinheiro para facilitar fugas e saídas de detentos da unidade prisional.
A Casa de Detenção (Cadet) é uma das sete unidades do Complexo
Penitenciário de Pedrinhas, em São Luís, que também é formado pelo
presídio feminino, Centro de Custódia de Presos de Justiça (CCPJ),
Presídios São Luís I e II, Triagem, e Centro de Detenção Provisória
(CDP). O Complexo é conhecido internacionalmente pelos problemas de
segurança causados por fugas e mortes, e também foi palco de brigas de
facções, com presos decapitados. Somente na Casa de Detenção, nos
últimos 11 meses,
10 detentos morreram no local e pelo menos 20 ficaram feridos após briga entre facções criminosas.
Segundo a Polícia Civil, o diretor do presídio era investigado há três
meses e foi descoberto que ele mantinha um esquema para colocar os
presos em liberdade e mantê-los soltos o tempo que eles precisassem.
Quanto maior o tempo na rua, maior o preço cobrado.

Ainda de acordo com a Polícia Civil, uma quadrilha de assaltantes
chegou a pagar R$ 300 mil para sair da cadeia e ir embora de vez.
Imagens do circuito interno de Pedrinhas mostraram a quadrilha inteira
indo embora. A autorização para a saída era feita com um documento
falso, assinado pelo diretor. Mas para o sistema carcerário, os detentos
continuavam presos.
Segundo o delegado que preside o inquérito, André Gossain, Barcelos
admitiu ter liberado quatro presos, mas nenhum por dinheiro em troca.
"Ele afirma que eram detentos de boa conduta, e que também autorizava
saídas temporárias, mas que ficava monitorando os beneficiados.
Concidentemente, um dos presos voltava para o presídio quando o diretor
era preso. Vamos ouví-lo agora", afirmou o delegado.
Detento prometeu a diretor que voltaria à Casa de
Detenção (Foto: Reprodução/TV Mirante)
Mensagens de telefone trocadas entre o diretor e os fugitivos,
interceptadas com autorização da Justiça, revelam uma cumplicidade entre
eles. Em uma delas, o diretor pede para o detento retornar à unidade
prisional porque haveria uma recontagem dos presos. Ele promete um
emprego na portaria para o fugitivo. Em outra mensagem, um preso diz que
está na Bolívia e que não pretende mais voltar.
Já em outra mensagem, um preso diz que ‘dá a palavra dele de que vai
voltar’. Outra mensagem mostra que um detento pede o número da conta do
diretor, e diz que vai ‘mandar uma ideia’, que segundo a polícia quer
dizer dinheiro. “Deve haver outros funcionários. A gente tem quase a
certeza e vamos chegar a essas outras pessoas que também participavam
dessa fraude, e essas pessoas serão responsabilizadas”, afirmou o
superintendente de investigações criminais da Polícia Civil, delegado
Luís Jorge (
veja vídeo acima).
Barcelos respondia pela direção da unidade prisional há oito meses.
Nesse período, dois inquéritos foram abertos, também por suspeitas de
facilitação em fugas de detentos. Antes de ser diretor da Casa de
Detenção foi assessor jurídico do Centro de Detenção Provisória de
Pedrinhas (CDP); da Secretaria-adjunta de Justiça; e assessor jurídico
da Casa de Detenção.
Após a prisão de Barcelos, a Sejap escolheu um substituto.
O novo titular da Casa de Detenção, Pastor Noleto, como é conhecido,
era o diretor do Centro de Triagem, também em Pedrinhas. O substituto
para a direção da Triagem ainda não está decidido, de acordo com o
secretário de Estado de Justiça e Administração Penintenciária (Sejap),
Sebastião Uchoa.
nvestigaçõesCláudio Barcelos foi preso na manhã desta segunda-feira (15)
após policiais cumprirem cumpriram mandados de prisão preventiva e de
busca e apreensão em seu escritório e sua residência. As investigações
contra o diretor foram iniciadas em junho, quando a Superintendência de
Investigações Criminais (Seic) começou a perceber que presos que
deveriam prestar depoimentos em audiências não compareciam porque haviam
fugido, sem sequer a informação constar no sistema penitenciário. De
acordo com o superintendente da Seic, Luís Jorge, as fugas não ocorreram
coletivamente.
“A maioria dos detentos que fugiram da Cadet era assaltantes. Começamos
a ver que bandidos que não tinham família aqui eram beneficiados com
saídas temporárias de datas comemorativas e não retornavam, por exemplo.
As fugas normalmente eram pela porta da frente, com alvará falso, ou de
outros processos. Percebemos que tinha gente de dentro facilitando,
pois era amador demais”, afirmou o superintendente.
As suspeitas ganharam maior sustentação há cerca de 20 dias, quando
três homens que assaltaram um carro-forte em Sítio Novo, MA, fugiram.
“Eles são de alta periculosidade. Fomos no sistema e vimos que eles
estavam ativos, como se ainda estivessem presos. O diretor tomava
decisões sem o conhecimento da Vara de Execuções Penais. Dava a sentença
dos presos como se fosse o próprio juiz. Temos informações de que
outros negociavam passar um fim de semana fora, uma semana fora, e
depois voltavam. Ele ligava para os presos avisando para retornar, pois
teria recontagem”.