
Ao menos 278 pessoas morreram, incluindo 43 policiais, e mais de 2.000
ficaram feridas, segundo o Ministério da Saúde, na onda de violência
causada pelo massacre. A situação se espalhou pelo país e o governo
interino decretou estado de emergência. O vice-presidente Mohamed
ElBaradei renunciou ao cargo em protesto contra o derramamento de
sangue.
o menos cinco
líderes da Irmandade Muçulmana foram presos e bancos
e demais instituições financeiras foram fechados. O estado de
emergência entrou em vigor às 16h (11h no horário de Brasília) em 11 das
27 províncias egípcias. "Quem violar essas ordens será preso", disse um
porta-voz do governo em comunicado lido na TV estatal.
como forma de protesto. "Os beneficiários do que aconteceu hoje são
aqueles que pedem por violência, terrorismo e os grupos mais
extremistas.Como você sabe, eu acreditava que havia maneiras pacíficas
de encerrar este confronto na sociedade, havia soluções propostas e
aceitáveis... que nos levariam ao consenso nacional", escreveu. "Ficou
difícil para mim continuar a ter responsabilidade por decisões com as
quais eu não concordo e cujas consequências eu temo. Não posso carregar a
responsabilidade por um derramamento de sangue."
A operação começou às 7h, no horário local. Testemunhas dizem ter
ouvido tiros de fuzis enquanto uma nuvem branca de bombas de gás
lacrimogêneo se misturava com a fumaça preta de pneus queimados pelos
manifestantes. A menor das duas concentrações de partidários da
Irmandade, na Praça Nahda, perto da Universidade do Cairo, foi
dispersada primeiro.
A polícia reprimiu outra mobilização, essa maior, na mesquita Rabaa
al-Adawiya, no subúrbio de Nasr City. Para defender o local, membros da
Irmandade ergueram barricadas nas ruas e lançaram coquetéis molotov e
pedras contra a polícia.
"Isso é sórdido, eles estão destruindo
nossas barracas. Nós não podemos respirar e muitas pessoas estão no
hospital", disse Ahmed Murad, membro da Irmandade Muçulmana, no limite
do acampamento, onde o grupo tinha colocado sacos de areia na
expectativa de uma invasão policial.
Imagens de televisão egípcia mostraram médicos usando máscaras de gás e óculos de natação enquanto tentavam tratar os feridos.
O governo defendeu a operação. O porta-voz do Conselho de Ministros
Sherif Shauqi leu um comunicado do Executivo no qual afirmou que
perseguirão "os arruaceiros" para proteger as propriedades do povo. Além
disso, o governo pediu à Irmandade Muçulmana que pare de estimular seus
seguidores a prejudicarem a segurança nacional.
"O executivo atribuirá aos dirigentes da Irmandade Muçulmana a
responsabilidade total de qualquer sangue derramado e de todo o caos e a
violência atual", advertiu o porta-voz.
O ministro do Interior interino, Mohammed Ibrahim, justificou a ação
dizendo que "foram dadas todas as chances para uma solução diplomática",
mas os partidários de Morsi não se retiraram das ruas. "Nós não vamos
mais permitir qualquer cidadão acampado em qualquer lugar do país",
finalizou Ibrahim.
Mortos. O Ministério da Saúde afirmou que pelo menos 235 civis foram mortos e mais de 2.000 ficaram feridos. Segundo Ibrahim,
43 policiais também morreram e 211 foram feridos nos confrontos desta quarta-feira.
Houve relatos ao longo do dia de ataques de grupos islamistas a
igrejas cristãs coptas em várias províncias do sul do Egito, que seriam
uma retaliação à ofensiva do Exército contra a Irmandade Muçulmana.
Os confrontos se espalharam para outras cidades, como Alexandria e
Fayoum. Ali, partidários de Morsi atacaram pelo menos duas delegacias de
polícia e incendiaram veículos policiais em frente a uma delas,
disseram testemunhas. Também houve confrontos em frente ao gabinete do
governador provincial.
Um cinegrafista britânico do canal
Sky News foi morto nos
protestos. Mick Deane tinha 61 anos e já tinha trabalhado como
correspondente nos EUA, além do Egito. Segundo o canal, o resto da
equipe não foi ferida. O premiê-britânico David Cameron lamentou a morte
de Deane.
Outra jornalista, de Dubai, também morreu ao cobrir os protestos.
Habiba Ahmed Abd Elaziz, 26 anos, levou um tiro perto de uma mesquita no
Cairo. O jornal disse que ela estava em férias e não cobria os
protestos para a
Xpress, publicação que integra o grupo e para a qual ela trabalhava.
O repórter egípcio Ahmed Abdel Gawad, do jornal estatal
Al Akhbar,
também foi morto perto de Rabaah al-Adawiya. O sindicato de jornalistas
egípcio confirmou a morte de Gawad, mas não informou como ocorreu.
A dura repressão policial reflete a divisão na sociedade egípcia
entre os islamistas partidários da Irmandade Muçulmana e grupos
seculares que defendem o golpe de Estado dado pelos militares contra
Morsi em julho. A operação aconteceu após o fracasso de esforços
internacionais para mediar um fim a um período de seis semanas de
impasse político.
/ NYT, REUTERS e EFE